Doença rara causa lesão medular e deixa médico paraplégico; recuperação de lesões ainda é uma incógnita para a medicina

Lucas Hoffmann teve uma lesão medular após um cavernoma, malformação rara nos vasos sanguíneos. Após dois sangramentos e cirurgias complexas, ele enfrenta uma reabilitação, mas a evolução ainda é difícil de prever.

Jun 3, 2026 - 15:22
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Doença rara causa lesão medular e deixa médico paraplégico; recuperação de lesões ainda é uma incógnita para a medicina

Lucas Hoffmann saiu de um plantão médico andando e, poucas horas depois, já não conseguia mover as pernas. O responsável foi um sangramento provocado por um cavernoma na medula espinhal, uma condição rara que causa malformações nos vasos sanguíneos. Desde então, ele enfrenta uma longa jornada de reabilitação para tentar voltar a andar.

 O cavernoma é uma malformação vascular causada por uma alteração nos vasos sanguíneos do cérebro ou da medula espinhal. A condição forma um emaranhado de pequenos vasos, envoltos por uma estrutura semelhante a uma caverna, o que aumenta o risco de sangramentos no local onde surge.

A doença é silenciosa. Muitos pacientes só descobrem que têm um cavernoma depois que ocorre um sangramento capaz de provocar sintomas ou sequelas. A condição também é considerada rara: segundo especialistas, cerca de uma em cada 200 mil pessoas tem essa malformação no cérebro, onde ela é mais frequente.

No caso de Lucas, a situação era ainda mais incomum. Apenas cerca de 2% dos cavernomas surgem na medula espinhal -- o que significa 1 em cada 100 milhões.

O sangramento gerou uma lesão na medula espinhal, e o médico perdeu o movimento das pernas. Agora, ele vive uma jornada para voltar a andar — uma jornada complexa. Hoje, a recuperação de pacientes com lesão medular é uma incógnita. Não existe medicamento ou intervenção capaz de restabelecer a conexão interrompida pela lesão.

Há pesquisas em andamento, como a polilaminina. Apesar de ter uso compassivo permitido para pacientes, a pesquisa que pode comprovar a eficácia e a segurança da substância ainda está em fase inicial.

Hoje, sou um médico que tem mais a perspectiva do paciente. Tenho muita esperança de que eu possa voltar a andar e ter a vida que eu tinha. Mas, enquanto isso não muda, quero ser o melhor médico que posso ser e cumprir o meu legado, que é ajudar as pessoas que estão nesse processo.
— Lucas Hoffmann, médico e paciente com lesão medular


Lucas conta que estava atendendo pacientes no fim de 2025 quando começou a sentir fortes dores na cervical. Na saída, uma enfermeira percebeu que ele estava arrastando uma das pernas ao andar, e ele foi levado para atendimento.

Depois de uma série de exames, descobriram que ele tinha um cavernoma em sua versão mais rara: na medula espinhal.

“Mesmo como médico, nunca tinha ouvido falar na doença. A primeira vez foi recebendo o meu diagnóstico”, explica.

O sangramento na medula é um quadro grave. A medula espinhal é um feixe de nervos que conecta o cérebro ao restante do corpo. Ela funciona como uma via de comunicação: transmite os comandos do cérebro para os músculos e leva de volta informações. É por esse mecanismo que o ser humano consegue se movimentar.

O cavernoma colocou uma quantidade de sangue nesse delicado feixe de nervos, gerando uma lesão. Com isso, a comunicação que antes existia foi interrompida, e ele perdeu o movimento das pernas e a sensibilidade até o umbigo.

Eu saí de um dia normal de atendimento para uma vida completamente diferente da que eu conhecia, em uma cadeira de rodas.
— Lucas Hoffmann, médico e paciente com lesão medular

De 2025 até o início deste ano, Lucas esteve dedicado a uma rotina de reabilitação. O médico havia conseguido, em seis meses de tratamento com fisioterapia, recuperar a sensibilidade até o umbigo e já sentia a coxa. Uma evolução considerável diante do quadro dele. O plano era seguir com a reabilitação e, até agosto, voltar ao consultório — ele atende na rede pública do Paraná.

No entanto, foi surpreendido por um novo sangramento em abril deste ano. Ele sentiu novamente uma dor intensa na cervical e, em poucas horas, já não tinha mais força nem movimentos nos braços.

O sangramento havia subido dois níveis na medula em relação ao episódio anterior — desta vez chegando à vértebra C4 e comprometendo também o braço. Havia um risco alto de que, dessa vez, ele perdesse completamente os movimentos.


Oito horas de cirurgia, conectado a eletrodos
Depois do sangramento, Lucas foi transferido de avião para São Paulo para passar por um especialista em seu caso, o neurocirurgião Francisco Sampaio, especialista em coluna vertebral do Hospital Sírio-Libanês e da Rede D'Or Star.

O médico explica que, no primeiro sangramento, foi feita uma cirurgia de emergência, com a região ainda vulnerável, e não foi possível retirar todo o cavernoma.

Dessa vez, a cirurgia podia ser feita com mais tempo, mas era mais desafiadora. Afinal, a região já havia sido operada antes, o que torna o procedimento mais complexo.

Para essa etapa, ele passou por um processo inovador: a técnica de monitoramento neurológico intraoperatório. Nela, são introduzidos 180 eletrodos no corpo do paciente durante a cirurgia.

Com isso, um médico monitorava cada movimento do bisturi: quando o cirurgião tocava em uma área ligada ao braço esquerdo — que Lucas ainda movimentava — a equipe parava imediatamente. Cada milímetro era mapeado antes de avançar.

"Antigamente, nos guiávamos apenas pela anatomia e tínhamos que esperar o paciente acordar para saber se havia alguma sequela. Hoje, conseguimos saber em tempo real qual é a consequência de mexer naquela área e, assim, preservar a medula do paciente.
— Francisco Sampaio, especialista em coluna vertebral do Hospital Sírio-Libanês e da Rede D'Or Star

Foram oito horas de cirurgia, mas o procedimento foi um sucesso. O cavernoma foi retirado completamente, e Lucas saiu movimentando o braço com força total — exatamente como estava antes.

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